Dissertar acerca de temas como: população, recursos e ideologia é uma tarefa impossível de se realizar sendo eticamente neutro. Em parte porque a ciência não o é, e muito também pelas sérias deficiências existentes nos métodos de estudo científicos – sejam eles empíricos ou racionalistas. Toda pesquisa tem lugar num contexto social, expressa ideais de igual valor e contém significados sociais. Por isso, deve-se entender as conexões entre método, ideologia e conclusões substantivas ao examinar os trabalhos de Malthus, Marx e Ricardo.
O método que Malthus advoga é empírico, demonstra que o poder da população é indefinidamente maior que o poder da terra para produzir a subsistência. Defende, então, controles positivos e preventivos que teriam como função harmonizar a relação consumo versus meio de subsistência. O autor reconhece que a miséria entre as classes mais baixas deve ser interpretada como um mal tão profundamente arraigado na sociedade que nenhuma atitude pode alcançá-lo. É inquestionável que a riqueza produz as necessidades; mas é uma verdade ainda mais importante que as necessidades produzem a riqueza. As classes mais baixas reproduzem-se rapidamente. Assim sendo, a lei da população é desagregada em uma lei para os pobres e outra para os ricos.
O mecanismo de seu pensamento tem como base o princípio capitalista: economizar, investir na atividade produtiva, vender o produto visando o lucro e usá-lo como um novo investimento a fim de garantir o ciclo de produtividade. Para tal, estabelece-se um paradoxo: havendo a necessidade de vender o produto para obter o lucro, aquele que desembolsa o capital para aquisição não está economizando – o que contradiz o princípio referido. Ainda assim, se economizar muito, a taxa de acumulação do capital aumenta rapidamente e, muito antes que os problemas de subsistência sejam notados, o desenvolvimento será controlado pela falta de uma demanda efetiva à produção ampliada.
Vale lembrar que para a taxa de crescimento da população, ou para a necessária existência de seus controles, pouca diferença faria se a situação da demanda e da oferta fosse produzida prematuramente por uma má estruturação da sociedade ou uma distribuição desfavorável de riqueza. O trabalhador sofre reflexos em mesmo grau qualquer que seja sua causa.
No trabalho de Ricardo, por sua vez, o princípio de população tem um papel oposto e também é tratado de acordo com uma metodologia diferente. Seu método consistia em abstrair elementos e relações fundamentais da complexa realidade e manipulá-los de modo a evidenciar a estrutura do sistema em questão. Racionalista que era, o autor contrasta-se fortemente com Malthus em relação ao seu conceito de harmonia social.
Estabelece-se em sua obra o problema analítico de explicar o equilíbrio da taxa salarial, pois acreditava que este era determinado por dois fatores: a escassez e os custos da subsistência. A curto prazo e sob circunstâncias favoráveis, a taxa de acumulação do capital poderia exceder a capacidade da população de produzir, e durante tais períodos os salários poderiam estar bem acima do seu preço natural. Assim sendo, através do estímulo que os altos salários dão ao aumento da população, o número de trabalhadores cresce e os salários caem – naturalmente – abaixo de seu valor pretérito.
Ricardo, por fim, não estava dissuadido pela evidência empírica e não tinha sentimento de débito com a história. Sua análise permitiu enxergar a possibilidade de melhoria da realidade em vez de somente entendê-la e aceitá-la.
A fundamental diferença entre os dois pensadores acima e Marx se deveu certamente ao método. Marx defendia que não existiam recursos em abstrato, nem recursos que sejam uma coisa em si mesma. Essa visão relacional do mundo rompe com a visão Aristotélica antes praticada.
Neste contexto, a base econômica da sociedade passaria a compreender duas estruturas: as forças produtivas e as relações sociais de produção. Marx, por conseguinte, fez distinção entre uma divisão técnica do trabalho e uma divisão social. Usualmente, o autor recorria ao fato de que o homem tem que comer para que possa e viver, e; que a produção – transformação da natureza – tem que ser prioridade sobre as outras estruturas numa situação de conflito. A lei capitalista de acumulação sempre manipulou a sociedade para os limites de suas relações sociais e de sua base de recursos naturais.
Posto isso, é conveniente estabelecer o conceito de mais-valia teorizado pelo alemão. A partir do “sobretrabalho”, argumentava ele, parte do tempo de trabalho do proletariado era entregue gratuitamente ao empregador. Se a mais-valia é empregada para a produção de mais-valia, então mais dinheiro teria que ser despendido em salários e na aquisição de matéria prima para os meios de produção. Sob esta ótica a lei da produção capitalista nada mais é que a pretensa lei natural de população, reduzindo-se à taxa de acumulação capitalista e a expansão da força de trabalho.
Nota-se, pautado em tais argumentos, uma maior distância quanto ao pensamento de Malthus e Ricardo, pois atribui à lei de população uma validez universal salientando que a população trabalhadora produz tanto o excedente como o equipamento de capital.
O argumento central do presente fichamento é que o único método capaz de tratar com as complexidades da relação população-recursos de um modo integrado e dinâmico é aquele fundamentado no materialismo dialético. A pobreza não pode, portanto, ser explicada satisfatoriamente com a invocação de alguma lei, pois Marx reconhece que uma alta taxa de acumulação de capital favoreceria também o crescimento populacional – fechando a cadeia iniciada por Malthus e posteriormente ampliada por Ricardo.
ouve é um aumento na intensidade sonora, enquanto no segundo caso temos o anulamento ou extinção dessas ondas; ou seja: o silêncio.