Aluísio Komarchesqui Leibanti

11, Junho 2009

População, Recursos e Ideologia da Ciência

Arquivado em: Nerdlike — Aluísio @ 12:06 pm

Dissertar acerca de temas como: população, recursos e ideologia é uma tarefa impossível de se realizar sendo eticamente neutro. Em parte porque a ciência não o é, e muito também pelas sérias deficiências existentes nos métodos de estudo científicos – sejam eles empíricos ou racionalistas. Toda pesquisa tem lugar num contexto social, expressa ideais de igual valor e contém significados sociais. Por isso, deve-se entender as conexões entre método, ideologia e conclusões substantivas ao examinar os trabalhos de Malthus, Marx e Ricardo.

O método que Malthus advoga é empírico, demonstra que o poder da população é indefinidamente maior que o poder da terra para produzir a subsistência. Defende, então, controles positivos e preventivos que teriam como função harmonizar a relação consumo versus meio de subsistência. O autor reconhece que a miséria entre as classes mais baixas deve ser interpretada como um mal tão profundamente arraigado na sociedade que nenhuma atitude pode alcançá-lo. É inquestionável que a riqueza produz as necessidades; mas é uma verdade ainda mais importante que as necessidades produzem a riqueza. As classes mais baixas reproduzem-se rapidamente. Assim sendo, a lei da população é desagregada em uma lei para os pobres e outra para os ricos.

O mecanismo de seu pensamento tem como base o princípio capitalista: economizar, investir na atividade produtiva, vender o produto visando o lucro e usá-lo como um novo investimento a fim de garantir o ciclo de produtividade. Para tal, estabelece-se um paradoxo: havendo a necessidade de vender o produto para obter o lucro, aquele que desembolsa o capital para aquisição não está economizando – o que contradiz o princípio referido. Ainda assim, se economizar muito, a taxa de acumulação do capital aumenta rapidamente e, muito antes que os problemas de subsistência sejam notados, o desenvolvimento será controlado pela falta de uma demanda efetiva à produção ampliada.

Vale lembrar que para a taxa de crescimento da população, ou para a necessária existência de seus controles, pouca diferença faria se a situação da demanda e da oferta fosse produzida prematuramente por uma má estruturação da sociedade ou uma distribuição desfavorável de riqueza. O trabalhador sofre reflexos em mesmo grau qualquer que seja sua causa.

No trabalho de Ricardo, por sua vez, o princípio de população tem um papel oposto e também é tratado de acordo com uma metodologia diferente. Seu método consistia em abstrair elementos e relações fundamentais da complexa realidade e manipulá-los de modo a evidenciar a estrutura do sistema em questão. Racionalista que era, o autor contrasta-se fortemente com Malthus em relação ao seu conceito de harmonia social.

Estabelece-se em sua obra o problema analítico de explicar o equilíbrio da taxa salarial, pois acreditava que este era determinado por dois fatores: a escassez e os custos da subsistência. A curto prazo e sob circunstâncias favoráveis, a taxa de acumulação do capital poderia exceder a capacidade da população de produzir, e durante tais períodos os salários poderiam estar bem acima do seu preço natural. Assim sendo, através do estímulo que os altos salários dão ao aumento da população, o número de trabalhadores cresce e os salários caem – naturalmente – abaixo de seu valor pretérito.

Ricardo, por fim, não estava dissuadido pela evidência empírica e não tinha sentimento de débito com a história. Sua análise permitiu enxergar a possibilidade de melhoria da realidade em vez de somente entendê-la e aceitá-la.

A fundamental diferença entre os dois pensadores acima e Marx se deveu certamente ao método. Marx defendia que não existiam recursos em abstrato, nem recursos que sejam uma coisa em si mesma. Essa visão relacional do mundo rompe com a visão Aristotélica antes praticada.

Neste contexto, a base econômica da sociedade passaria a compreender duas estruturas: as forças produtivas e as relações sociais de produção. Marx, por conseguinte, fez distinção entre uma divisão técnica do trabalho e uma divisão social. Usualmente, o autor recorria ao fato de que o homem tem que comer para que possa e viver, e; que a produção – transformação da natureza – tem que ser prioridade sobre as outras estruturas numa situação de conflito. A lei capitalista de acumulação sempre manipulou a sociedade para os limites de suas relações sociais e de sua base de recursos naturais.

Posto isso, é conveniente estabelecer o conceito de mais-valia teorizado pelo alemão. A partir do “sobretrabalho”, argumentava ele, parte do tempo de trabalho do proletariado era entregue gratuitamente ao empregador. Se a mais-valia é empregada para a produção de mais-valia, então mais dinheiro teria que ser despendido em salários e na aquisição de matéria prima para os meios de produção. Sob esta ótica a lei da produção capitalista nada mais é que a pretensa lei natural de população, reduzindo-se à taxa de acumulação capitalista e a expansão da força de trabalho.

Nota-se, pautado em tais argumentos, uma maior distância quanto ao pensamento de Malthus e Ricardo, pois atribui à lei de população uma validez universal salientando que a população trabalhadora produz tanto o excedente como o equipamento de capital.

O argumento central do presente fichamento é que o único método capaz de tratar com as complexidades da relação população-recursos de um modo integrado e dinâmico é aquele fundamentado no materialismo dialético. A pobreza não pode, portanto, ser explicada satisfatoriamente com a invocação de alguma lei, pois Marx reconhece que uma alta taxa de acumulação de capital favoreceria também o crescimento populacional – fechando a cadeia iniciada por Malthus e posteriormente ampliada por Ricardo.

02, Novembro 2008

Alicerce capital

Arquivado em: Nerdlike — Aluísio @ 9:43 am

     Contrapor a função social da terra às peripécias capitalistas da especulação financeira, mais-valia e monopólio do espaço urbano é exortar a incapacidade humana de administrá-la. Pode-se, a partir de então, questionar a legitimidade de tal ato comumente encarado como natural.

     Tal visão social é acentuada, sobremaneira, por ser a terra uma ‘‘necessidade inerente ao ser humano, numa concepção agrário-geográfica, como base do viver, do trabalhar e do produzir.’’ Dessa forma; o planejamento territorial vigente é segregativo, pois cabe a determinada minoria decisões concernentes à infra-estrutura  global aptas a influenciar no valor de mercado das pautadas propriedades. [1]

     Sendo o montante de serviços urbanos escassos fonte ao que demanda o cidadão, o mercado os leiloa mediante a valorização diferencial do uso do solo [2]. Assim, serviços fornecidos gratuitamente aos moradores – como ruas asfaltadas, coleta de lixo, iluminação pública, galerias pluviais – acabam por serem usufruídos apenas por aqueles dispostos e aptos a pagar por eles como se fossem benefícios.

     Mais que substrato ou fonte de labor, a terra passa a ser investigada como mero elemento mercantil cuja virtude mais renitente é seu valor nominal bruto – o que determina a organização social no contexto contemporâneo.

     O desafio do Engenheiro Civil passa a ser, como construtor e modificador do espaço, discernir sobre as necessidades de determinada população para que atendidas, concilie o planejamento urbano e não se torne algoz agente desse processo exploratório do meio imobiliário.

 

 

[1] Inciso III, do artigo 1º, da Constituição Federal. 1988.

[2] SINGER, Paul. ‘O Uso do solo urbano na economia capitalista’, 1978.

24, Setembro 2008

Max Weber: conceitos

Arquivado em: Nerdlike — Aluísio @ 12:04 am

Estudar o antipositivismo de Weber é eminentemente compor às ciências da natureza do espírito o papel dos valores humanos. Ao fazê-lo, há de se lançar mão de conceitos pré-estabelecidos por Marx e Nietszche a fim de compreender o abrangente processo capitalista ocidental – suas idéias e fatores de ordem material.  A teoria compreensiva do autor trata do individuo de forma que não exista o conceito de totalidade em sua obra; já que para isso seria necessário conhecer as vontades e sentimentos de todas as pessoas.
Primeiramente, ressalta-se o conceito primário de sociologia para Weber: “ciência que pretende entender a ação social para explicá-la casualmente em seu desenvolvimento e efeitos – observando suas regularidades expressas na forma de usos, costumes ou situações de interesse”. Partindo deste princípio e de que a sociedade externa é uma realidade múltipla e inesgotável, Weber trabalha com uma elaboração limite para o estudo sociológico, à qual alcunha de tipos puros ou ideais – ainda que tenha consciência do irracional, das emoções e equívocos implícitos no desenvolvimento das ações sociais.
Tais tipos puros de ação social são quatro: a ação racional com relação a fins, a ação racional com relação a valores, a ação tradicional e a ação afetiva. Cabe ao sociólogo ponderar o sentido que se atribui à determinada ação para estabelecer seu verdadeiro significado social, uma vez que esses tipos não passam de modelos conceituais puros.
A ação social será racional com relação a fins quando, para atingir um objetivo estabelecido, parte de uma conduta científica ou de uma ação econômica que permitam interpretação racional. Para considerar uma ação racional com relação a valores, o interlocutor deve orientar-se por fins últimos, agindo de acordo com suas próprias convicções e levando em conta fidelidade a valores específicos. Ainda mais, o sujeito age de modo afetivo quando sua ação inspira-se imediatamente em emoções como vingança, orgulho, admiração, medo ou inveja. Caso hábitos e costumes levem a que se aja exclusivamente em função deles, reagindo a estímulos habituais, estamos diante de ações tradicionais inaptas a extrapolar o cotidiano.
Uma conduta plural reciprocamente orientada, e que abrange conteúdos significativos, descansa na probabilidade de agir socialmente numa forma predeterminada a qual Weber denomina relação social. Nota-se esse princípio, por exemplo, no vendedor que aceita um cheque de seu cliente ou político que faz promessas a seus eleitores contando com votos. Esses atos baseiam-se em expectativas de condutas que não possuem obrigatoriamente reciprocidade.

No contexto de sobreposição das ações sociais com relações sociais surgem conflitos, sendo por excelência à sociologia a desigualdade. Nas sociedades capitalistas modernas a propriedade privada e as possibilidades de utilizá-la no mercado são determinantes essenciais de posição das pessoas. Tal concepção implica numa separação societária em esferas – econômicas, políticas, religiosas, jurídicas, culturais – com lógicas autônomas de funcionamento. Para Weber, o agente individual é a única entidade passível de conferir significado às suas ações e nelas combinar sentidos referentes a esferas distintas. É disso que trata sua obra “A ética protestante e o espírito do capitalismo”, sob a figura do empresário protestante cuja ação combina com pesos diferenciados o pujante sentido econômico com o caráter religioso e o aspecto da salvação.
A forma pela qual a honra é distribuída em uma comunidade é, segundo Weber, a ordem social. Estabelecidos conceitos referentes ao plano coletivo – classe, estamento, partido – se pode entender os diferenciados mecanismos de distribuição do poder. Pessoas que têm a mesma posição econômica no que tange à propriedade encontram-se na mesma situação de classe. Assim, as ações sociais têm a sua racionalidade definida pelo mercado.

Segundo os parâmetros sociológicos definidos pelo autor, o termo ‘classe’ só pode ser empregado a uma quantidade de pessoas que estejam representadas exclusivamente pelos mesmos interesses lucrativos em condições determinadas pelo mercado.

Em oposição às classes, os estamentos – geralmente – são comunidades de caráter amorfo que determinam a honra de seus elementos. Há também nesta modalidade a exigência de um modo de vida compatível para pertencer a determinado círculo; podendo ser abertos ou fechados. Uma casta, por exemplo, é um estamento fechado porque inúmeras obrigações e barreiras são intensificadas e fiscalizadas na participação estamentária.

Enquanto as classes defendem a ordem econômica como cerne, os estamentos o têm na ordem social: o primeiro enfatiza o sentido material como virtude, o segundo vê na honra o indicador da sociedade. Outra distinção entre eles refere-se à existência ou não de um sentimento de pertencimento, já que as classes são apenas unidades de status na comunidade. Para os partidos, tem-se a racionalidade das ações e a busca incessável por influir na comunidade, quase que como uma luta exclusiva pelo domínio por meio do caráter político. A finalidade dos partidos pode fazer uso de coação física ou ameaça para a ocupação de determinado aparato.
Um exemplo da influência das classes é a aristocracia feudal européia no século XVIII, pois mesmo financeiramente decadente ela ainda era socialmente deificada em relação aos ‘novos ricos’ burgueses. Este fenômeno pode ser contemporaneamente associado à dileção pelas classes emergentes aos ditos participantes de uma alta sociedade (high society).

Ilustrando as castas evidencia-se o sistema hindu, uma divisão social importante em países como a Índia e o Nepal. Este grupo social é dito hereditário, isto é, a condição do indivíduo passa de pai para filho, endógamo, pois ele só pode casar-se com pessoas do seu próprio grupo. Seus integrantes estão predeterminados à sua profissão, hábitos alimentares e o tipo de vestuário. Tem-se dessa maneira a formação de uma sociedade estática. Originalmente, as castas são quatro: os brâmanes – religiosos e nobres –, os guerreiros xatrias, os vaixas – camponeses e comerciantes – e os sudras (escravos). À margem dessa estrutura social havia os párias, sem casta ou intocáveis, hoje chamados de haridchans ou haryans.

Conclui-se que os participantes de ações sociais e relações sociais podem orientar-se pelas suas crenças na validade de uma ordem que lhes apresenta obrigações ou modelos de conduta, podendo basear-se na racionalidade. Adquirindo a legitimidade, a ordem se torna válida e confirma as expectativas do sociólogo, compondo formações sociais diversificadas nas quais se detectam o aparecimento dos estados e de suas sociabilidades políticas.

** Esta é a versão original de meu artigo sobre Weber entregue como avaliação da disciplina de 6SOC009 do Curso de Engenharia Civil da Universidade Estadual de Londrina. A versão final contou com a revisão de orográfica de Amanda Z. Zucoloto e conceitual de Rogério R. Tostes.

29, Maio 2008

Trombone de Quincke

Arquivado em: Nerdlike — Aluísio @ 5:59 pm

       As ondas sonoras são ondas mecânicas que se propagam através de um gás, líquido ou sólido. Estas ondas são produzidas por deformações provocadas pela diferença de pressão em um meio elástico qualquer, como por exemplo, ar, metais ou isolantes. A maioria dos sons acaba sendo obtido através de objetos que estão vibrando, como é o caso de cordas; princípio fundamentel de instrumentos musicais como violão, violino, harpa, guitarra, contrabaixo, banjo e variantes.

        O Trombone de Quincke é um artefato criado para facilitar a compreensão do fenômeno de reflexão de ondas mecânicas. Ele possui um braço móvel que faz o comprimento do circuito variar, modificando assim as ondas sonoras.      

        O processo consiste em encaminhar um som simples produzido por uma dada fonte (diapasão, por exemplo) por duas vias diferentes (denominados ‘caminhos de marcha’) e depois reuní-los novamente em um receptor analisador (que pode ser o próprio ouvido).  Conforme o comprimento do braço móvel varia, as ondas passam por pontos de concordância ou oposição de fases. No primeiro caso, o que se ouve é um aumento na intensidade sonora, enquanto no segundo caso temos o anulamento ou extinção dessas ondas; ou seja: o silêncio.

        Pode-se notar que somando as duas freqüências há pontos onde a intensidade aumenta e diminui, sempre de forma simétrica.  Se suas freqüências não forem rigorosamente iguais, ora eles se superpõem em concordância de fase, ora em oposição de fase, ocorrendo isso a intervalos de tempo iguais, isto é, periodicamente se reforçam e se extinguem. É o fenômeno de batimento e o intervalo de tempo é denominado período do batimento evidenciado no gráfico.

      Referências
[1]
D. Halliday, R. Resnick, J. Merril, Fundamentos da Física, vol. II, cap. 17 e 18, 3ºed. (1994)

Trecho do meu relatório científico da disciplina 13FIS008 do curso de graduação em Engenharia Civil da Universidade Estadual de Londrina.

Blog no WordPress.com.