Aluísio Komarchesqui Leibanti

12, Junho 2009

Viadutos, pontes e afins.

Arquivado em: Cotidiano, Disclaimer, Lorotas — Aluísio @ 12:43 pm

viaduto

 

Para fazer um viaduto – pavimentado, quatro pistas, 20 metros de vão – utilizaremos aproximadamente 1100m³ de concreto com resistência de 15 MPa, 55 toneladas de aço com bitolas variadas, infinitos grãos de areia, milhares de parafusos, centenas de brocas, duzentos dias chuvosos e um barranquinho daqueles que a gente escorregava de papelão quando era pequeno.

Junte todos os ingredientes em um caldeirão de ferro puro remanescente da Santa Inquisição e cozinhe tudo por aproximadamente dois anos, alternando movimentos no sentido horário e anti-horário até que dê liga.

Os possíveis efeitos colaterais são: calvície, insônia, dores de cabeça e úlceras estomacais. Aprecie com moderação.

30, Agosto 2008

Solilóquio

Arquivado em: Lorotas — Aluísio @ 12:39 am

Lembra quando as mãos trêmulas calavam o pranto e no olhar era só ternura para fitar? Alvas manhãs distantes que o tempo roubou!
Se nada é perene, diz-me qual o pungente motivo da ganância, minha querida! Que inquietude derradeira macula o sossego duma vida imaculada?
Malditos sejam todos os leitos onde não estás – onde não estivemos. Tenho aquele caderno em que escreveste tuas primeiras frases de amor, desespero e culpa. Tenho nada mais. Um punhado de hiatos, vontades e lembranças.
Falas de motivos e causas como se tudo isso não passasse de produtos cartesianos desdenhados pela razão lúdica de nossos corpos amontoados. Escrevo numa caligrafia custosa palavras que nunca existiram. Escrevo.

03, Junho 2008

Patologias

Arquivado em: Lorotas — Aluísio @ 10:33 am

     Se havia parte alguma de seu corpo passível de dor, ela existia. Os músculos se contraiam de forma excruciante, como se fossem todos lisos; até os esqueléticos. Vencer a distância entre a cama e o criado-mudo era mais extenuante que ter corrido meia maratona no dia anterior.

     Colocara em prática sua filosofia blasé: questionava a efemeridade das coisas terrenas e a dependência corpo-mente. Reflexo de sua vida desregrada, ali; acamado e solitário. Talvez se o ímpeto de conhecer mais lugares ou ter mais parceiras fosse contido estaria em uma situação mais confortável. Julgou-se tolo por ignorar o fato de repentinamente ter de abrir mão de sua qualidade de vida. Admirou-se com a facilidade de se esquecer momentos de chá de jasmim em porcelana chinesa e lençóis de algodão egípcio. Uma vida inteira sob tais condições é varrida da lembrança em poucas horas em uma noite de malária cerebral. Tudo que construíra teve este termo: Anopheles, Plasmodium falciparum.

     Consumado, hipócrita, sem herdeiros.

29, Fevereiro 2008

Rebu

Arquivado em: Lorotas — Aluísio @ 8:50 pm

Acordara de supetão com o pacote – de volume notável – sendo colocado sobre a mesa. “Estava tão concentrada que não te vi entrar”, mentiu.

Possuía-lhe – agora – a mais cruel das avaliações: abrir ou não? Como reagiria ao evocar lembranças de uma maneira tão concreta? Dúvidas que eram chagas. Ponderou, decidiu mas vacilou. Deu tres voltas ao redor da mesa retangular de cedro. Como podiam as paredes ser tão brancas? O rebu de suas unhas demoradas agrediam o envelope branco grosseiramente. Ela não devia estar usando esmalte, tampouco de um vermelho tão vivaz: a culpa acometedora. Guardar luto perpétuo seria a solução?

Por fim, abriu. Era como se cada músculo de seus membros superiores se rebelassem contra os impulsos elétricos enviados pelo cérebro. Precisava mas não podia. Não podia, mas pode. Havia uma carta escrita por ela em um pretérito muito longinquo – amarelada até, mas muito conservada -, fotografias diversas, a loção pós barba que ele sempre usara, notas fiscais e um livro embrulhado para presente. Tudo o que mantivera em sua gaveta pessoal. Certezas e dúvidas. Certezas indissolúveis e questionamentos impossíveis. Para quem seria o livro? Não havia uma dedicatória sequer. A falta de tal pista evocava o arrependimento por tudo aquilo que faltara em suas vidas. Do fundo do envelope retirou o último volume: uma caixa.

Uma medalha para concluir a história. Precisava guardá-la com afinco pois viria o dia em que a manchete seria esquecida. Quantos médicos mais morreriam por engano em zonas de conflito internacionais? Quantas viúvas, orfãos e lágrimas? Um sem número delas. Procuraria um vidro de propanona prontamente. Basta uma bala para aniquilar duas ou mais vidas de uma vez só.

Basta uma bala para aniquilar duas ou mais vidas de uma vez só, se não houver o tempo. E para os viventes sempre há o tempo – direito inerente a vida – de forma que uma só vida padeça de fato e as demais ressuscitem.

19, Fevereiro 2008

Para francês ver

Arquivado em: Lorotas — Aluísio @ 1:40 am

A capital é tão multifacetada que ofusca até o brilho da nação Francesa, tão gloriosa e impávida. Tour Eiffel, Les Invalides, Conciergerie, Le Panthéon, Place de La Concorde, Opera de Paris e Palais Royal são titãs que não se confrontam, partes de um todo sem igual. Não há atração melhor ou mais proveitosa pois são uma.

Se você estivesse em Paris nesse momento poderia estar dormindo confortavelmente em uma suíte do Ritz com vista para a Place Vendome. Com um pouco mais de disposição iria ao Le Quatre Temps e gastaria um punhado de euros em um dos maiores shopping centers do mundo. Tomaria Veuve Clicquot, compraria roupas da moda novel e veria pessoas bonitas.

Zero Celsius. Se bem acompanhado uma ótima pedida seria passear pelo Sena a bordo do Vedettes de Paris, sentir a cidade luz, ouvir boa música e terminar a noite com um jantar inesquecível e beijos memoráveis, french kisses literalmente.

Os mais ávidos por conhecimento iriam a Quartier Latin onde fica Sorbonne e as melhores livrarias européias e, em meio aos deliciosos pães de centeio com nozes e passas, devorariam excepcionais publicações literárias. Até ler pode ser melhor do que é sabido, em Paris. Por fim tomaria um trem até Le Havre ou Sens e se afastaria do glamour e da correria parisiense por algumas horas até que o desejo de voltar fosse maior que qualquer outra coisa. O caminho para o Aéroport Charles de Gaulle seria sufocante como um requiem em fá menor.

Se você estivesse em Paris, sentiria o mesmo que eu sinto cada vez que olho certos olhos mel ou bebo dos lábios mais aprazíveis. O paraíso fica no centro da França ou no apartamento ao lado, numa esquina desconhecida ou na cidade circunvizinha. Aço é sempre aço.

Mas, afinal, estar neste blog não é tão ruim assim.

31, Janeiro 2008

Desabafo

Arquivado em: Lorotas — Aluísio @ 11:36 pm

O momento que precede a morte – alheia, por certo – é indescritível. A linha que determina o exício, fim da vida e começo da morte é tão discreta que aceita-se dizer que não exista. A fração de segundo entre o puxar do gatilho e o impacto do projétil no peito da vítima tem seu valor real dividido por um número imensamente pequeno. Ver a vida passar como em um filme? Lenga-lenga! Todo o acervo em vídeo da humanidade poderia ser projetado nesse intervalo de revés nefasto. Mas isso é na primeira.

Nunca mais se sente a pupila contrair como um músculo, o coração descompassar-se como os graves e agudos da Quinta por Bethoveen. O que era medo vira excitação.

Depois dela são só a segunda, a terceira, vigésima. Passa a ser uma necessidade fisiológica. Matadores são entidades movidas pela dependência psicológica, pelo costume inefável. É viver uma sina de luto, uma sina negra. Vie en noir.

26, Janeiro 2008

Longum iter emensus, mendacia longa reportat

Arquivado em: Lorotas — Aluísio @ 4:03 pm

Quando se pousa a mochila sobre os ombros tem-se um aspecto ímpar de viajar. O itinerário pouco importa, o que fica latente e é determinante no sucesso da expedição é a boa vontade para zanzar – a pé, de ônibus, taxi ou avião – e a segurança ao se correr riscos. Preguiça e medo demasiado não raro levam alguém além dos difundidos resorts.

O encanto de cada jornada se resume na multiplicidade de escolhas possíveis e os resultados específicos de cada acerto – ou erro. O prazer de conhecer pessoas e estabelecimentos diferentes e estar apto a avaliá-lo julgando cada aspecto individualmente é impagável. Voltei hoje de uma viagem assim, mais de mil quilômetros, seis restaurantes, várias lojas e um parque de diversões em enérgicas 30 horas que incluíram o sono. Conheci um cidadão de catorze anos que já tem contrato assinado com o Guarani e ganha por mês para treinar. Diz que joga muita bola, vai saber. Voltei com o telefone celular de um dono de livraria onde fui comprar um presente para minha namorada. Conversamos quase uma hora sobre literatura clássica e ele ainda me orientou sobre a melhor rota para voltar à rodoviária. Pediu que eu ligasse quando voltasse à cidade mas cobrou o preço integral pelo livro que comprei.

Não que lançar mão de correr pelo mundo seja uma virtude soberana. Não passa de um alívio espiritual e mimo para o ego por vezes construtivo, é verdade. Mas fica longe de ser inexorável. Conheço pessoas de caratér e conhecimento invejáveis e que não viajam muito. Kant – por exemplo – jamais deixou Konigsberg, sua terra natal. Não que eu tenha conhecido Kant, longe de mim. Não sou velho assim!

Ah, o cansaço? O cansaço – em absoluto, não relativo – é o de menos. O tédio assiste no descanso desmedido e isso é circustância para resorts.

19, Janeiro 2008

Eau de amour

Arquivado em: Lorotas — Aluísio @ 3:50 pm

Conto minha história inusitada e – sobretudo – infeliz. Faço o tipo bon vivant – despreocupado – com pouco mais de trinta anos, solteiro, bonito. Além disso tenho um carro esportivo e sou muito bem empregado. Adicione mais uma característica marcante: tenho um fraco por mulheres mais novas.

Como ia dizendo, trabalho há dez anos em uma empresa de perfumaria multinacional onde exerço um cargo de chefia. Lido diariamente com o processo de fabricação e inspeção de alguns dos perfumes mais cobiçados do mundo, um labor invejável mas deveras exigente. Para se ter idéia um perfume é composto por um número de essências que pode variar de setenta e cinco a duzentas. Ademais, há as notas que se dividem em três grupos: notas de cabeça, de coração e de fundo. Para um leigo isso pode parecer complicado mas na verdade tais notas se referem a duração do perfume nos mais variados tipos de peles.

Foi assim que a conheci: pelo cheiro. Não que o cheiro dela fosse o que mais me atraísse. Era extremamente bela, menos de dezoito anos com certeza. Meu mundo de pronto simplificou-se: um acorde básico de madeira, musgo de carvalho com floral e mais um blend irreconhecível entre thymo, salvia, menta, lavanda, manjericão ou alguma outra erva. Nem amadeirado, nem cítrico. Muito menos floral.

Jovens mulheres cheirosas e belas – de traços elegantes e corpos trabalhosos – me atraem tanto quanto suas maneiras comedidas e ingênuas. Noite sem igual, espumante francês, vestido de cetim e jazz americano. Conversas que fluem, universos a desvendar. Tomei-a pela mão e deleite maior não haveria, alva seda era sua pele. A cada sístole a atração aumentava e o desejo consumia. Esquecemos as horas, risadas, promessas e provocações. Por fim deixou-me um número de telefone. Mais que isso: um odor e número inexistentes.

Dos cheiros sempre soube ser perito enganável, mas jovens mulheres… ah, pouco pode-se prever sobre elas mesmo com o olfato mais bem treinado do mundo. Mulheres são fragrâncias sobre-humanas. Sublime parfums!

12, Janeiro 2008

Voyeurismo

Arquivado em: Lorotas — Aluísio @ 3:10 pm

Pedro criara um fascínio indizível sobre a vida alheia. Alheia não, em específico de Mariella. Era assim que havia alcunhado a vizinha, loura de tenra idade, busto farto, estudante. Tinha um olhar decidido e a maneira contida, peça para não se tirar os olhos. E Pedro não tirava. Era com eles que olfatava, percebia os aspectos, texturas e gostos, deixava ludibriar-se pelo que via.

Seus dias – até então monótonos – passaram a fadar-se em uma contemplação misteriosa. Se estava em casa não demorava a espichar os olhos através da janela torcendo para fitar aquela figura esguia e altiva. Tudo começava com uma inquietude inexplicável, aparentemente cada célula de seu corpo insubordinava-se ao racional do cérebro e cedia. Fazia isso sem um resquício de maldade sequer, alegrava-o observar a limítrofe em qualquer cena que fosse do cotidiano: lendo displicentemente no sofá, lavando louça, assistindo à tevê ou trocando de roupa… Arre! Esqueçam a parte do trocar de roupa! Como lavava louças de forma graciosa!

Em tudo Pedro lhe era cativo, desmarcava compromissos, criava pretextos para não sair de casa. A complexidade de sua situação era tal que passou a viver em função dela e bastavam dois dias sem vê-la para enfadar-se. Até que foram três, cinco, oito, onze dias. Quatro meses. E por sorte outra Mariella surgiu, mais vulgar, não lia. Mudou-se também. Mas veio outra, e outra, e outra. Todas Mariellas de um expectador com olhos caducos.

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