Conto minha história inusitada e – sobretudo – infeliz. Faço o tipo bon vivant – despreocupado – com pouco mais de trinta anos, solteiro, bonito. Além disso tenho um carro esportivo e sou muito bem empregado. Adicione mais uma característica marcante: tenho um fraco por mulheres mais novas.
Como ia dizendo, trabalho há dez anos em uma empresa de perfumaria multinacional onde exerço um cargo de chefia. Lido diariamente com o processo de fabricação e inspeção de alguns dos perfumes mais cobiçados do mundo, um labor invejável mas deveras exigente. Para se ter idéia um perfume é composto por um número de essências que pode variar de setenta e cinco a duzentas. Ademais, há as notas que se dividem em três grupos: notas de cabeça, de coração e de fundo. Para um leigo isso pode parecer complicado mas na verdade tais notas se referem a duração do perfume nos mais variados tipos de peles.
Foi assim que a conheci: pelo cheiro. Não que o cheiro dela fosse o que mais me atraísse. Era extremamente bela, menos de dezoito anos com certeza. Meu mundo de pronto simplificou-se: um acorde básico de madeira, musgo de carvalho com floral e mais um blend irreconhecível entre thymo, salvia, menta, lavanda, manjericão ou alguma outra erva. Nem amadeirado, nem cítrico. Muito menos floral.
Jovens mulheres cheirosas e belas – de traços elegantes e corpos trabalhosos – me atraem tanto quanto suas maneiras comedidas e ingênuas. Noite sem igual, espumante francês, vestido de cetim e jazz americano. Conversas que fluem, universos a desvendar. Tomei-a pela mão e deleite maior não haveria, alva seda era sua pele. A cada sístole a atração aumentava e o desejo consumia. Esquecemos as horas, risadas, promessas e provocações. Por fim deixou-me um número de telefone. Mais que isso: um odor e número inexistentes.
Dos cheiros sempre soube ser perito enganável, mas jovens mulheres… ah, pouco pode-se prever sobre elas mesmo com o olfato mais bem treinado do mundo. Mulheres são fragrâncias sobre-humanas. Sublime parfums!