Lembra quando as mãos trêmulas calavam o pranto e no olhar era só ternura para fitar? Alvas manhãs distantes que o tempo roubou!
Se nada é perene, diz-me qual o pungente motivo da ganância, minha querida! Que inquietude derradeira macula o sossego duma vida imaculada?
Malditos sejam todos os leitos onde não estás – onde não estivemos. Tenho aquele caderno em que escreveste tuas primeiras frases de amor, desespero e culpa. Tenho nada mais. Um punhado de hiatos, vontades e lembranças.
Falas de motivos e causas como se tudo isso não passasse de produtos cartesianos desdenhados pela razão lúdica de nossos corpos amontoados. Escrevo numa caligrafia custosa palavras que nunca existiram. Escrevo.
30, Agosto 2008
Solilóquio
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