Aluísio Komarchesqui Leibanti

29, Fevereiro 2008

Rebu

Arquivado em: Lorotas — Aluísio @ 8:50 pm

Acordara de supetão com o pacote – de volume notável – sendo colocado sobre a mesa. “Estava tão concentrada que não te vi entrar”, mentiu.

Possuía-lhe – agora – a mais cruel das avaliações: abrir ou não? Como reagiria ao evocar lembranças de uma maneira tão concreta? Dúvidas que eram chagas. Ponderou, decidiu mas vacilou. Deu tres voltas ao redor da mesa retangular de cedro. Como podiam as paredes ser tão brancas? O rebu de suas unhas demoradas agrediam o envelope branco grosseiramente. Ela não devia estar usando esmalte, tampouco de um vermelho tão vivaz: a culpa acometedora. Guardar luto perpétuo seria a solução?

Por fim, abriu. Era como se cada músculo de seus membros superiores se rebelassem contra os impulsos elétricos enviados pelo cérebro. Precisava mas não podia. Não podia, mas pode. Havia uma carta escrita por ela em um pretérito muito longinquo – amarelada até, mas muito conservada -, fotografias diversas, a loção pós barba que ele sempre usara, notas fiscais e um livro embrulhado para presente. Tudo o que mantivera em sua gaveta pessoal. Certezas e dúvidas. Certezas indissolúveis e questionamentos impossíveis. Para quem seria o livro? Não havia uma dedicatória sequer. A falta de tal pista evocava o arrependimento por tudo aquilo que faltara em suas vidas. Do fundo do envelope retirou o último volume: uma caixa.

Uma medalha para concluir a história. Precisava guardá-la com afinco pois viria o dia em que a manchete seria esquecida. Quantos médicos mais morreriam por engano em zonas de conflito internacionais? Quantas viúvas, orfãos e lágrimas? Um sem número delas. Procuraria um vidro de propanona prontamente. Basta uma bala para aniquilar duas ou mais vidas de uma vez só.

Basta uma bala para aniquilar duas ou mais vidas de uma vez só, se não houver o tempo. E para os viventes sempre há o tempo – direito inerente a vida – de forma que uma só vida padeça de fato e as demais ressuscitem.

20, Fevereiro 2008

Fidelidade

Arquivado em: Cotidiano — Aluísio @ 11:17 am

Uma das frases mais errôneas que ouvi é a seguinte: “Já vi de tudo nessa vida”. Não pode haver atestado maior de que empáfia não mata, caso contrário o número de termos de pessoas atiladas dizimaria a população mundial. Confesso que em momentos de debilidade até a pessoa mais consciente pode vacilar e isso é totalmente perdoável.

Já vi banqueiro quebrar – como foi o caso do Cid Ferreira dono do Banco Santos – e a seleção brasileira de futebol perder para a França duas vezes. Tive também a oportunidade de presenciar um certo presidente – cujo dedo mindinho lhe falta – dizer que nada sabia a respeito do maior esquema de corrupção da história desse país. Como se não bastasse o World Trade Center sucumbiu e Osama Bin Laden, engenheiro civil que é, não foi capturado. Vi a Britney mostrando a ”perseguida” para os fotógrafos e Saddam Hussein sendo entregado. Já vi Chester, corinthiano inteligente, cão chupando manga – em foto! – e homens pobres e feios namorando moças bonitas. Agora Fidel Castro renunciou.

Fidel não foi simplesmente uma figura marcante, um ditador polemico, um herói ou um crápula. Ele concentrou em sua pessoa a história de uma nação ao se perpetuar no poder desde 1959 por meio da Revolução Social. Não há duvidas que a Cuba do ditador teve seu apogeu com o crescimento do socialismo e da URSS, e; por um tempo cerceou de fato a democracia e os direitos humanos em seu país com aumento da qualidade de vida. Seus estudos jurídicos e experiências militares somados a reflexões no exílio moldaram um caráter e ideologia que foram cruciais para determinar o que viria a ser seu país. Um bom método para estudar meio século de história cubana é ler uma biografia de qualidade do ditador, que tenha o mínimo de fidelidade aos interesses dele e uma boa cronologia.

Renuncias tarde, Doctor Honoris Causa. Contigo ficam lembranças de utopia, prosperidade, crueldade e trabalho. Teus são o Premio Lenin da Paz e o Mijail Sholojov. E nada mais. Com a queda do homem, resplandece um período de incertezas e abertura. Oportunidades e melhoras virão.

Agora só falta o Bush dançar La Macarena.

Trecho do livro

19, Fevereiro 2008

Para francês ver

Arquivado em: Lorotas — Aluísio @ 1:40 am

A capital é tão multifacetada que ofusca até o brilho da nação Francesa, tão gloriosa e impávida. Tour Eiffel, Les Invalides, Conciergerie, Le Panthéon, Place de La Concorde, Opera de Paris e Palais Royal são titãs que não se confrontam, partes de um todo sem igual. Não há atração melhor ou mais proveitosa pois são uma.

Se você estivesse em Paris nesse momento poderia estar dormindo confortavelmente em uma suíte do Ritz com vista para a Place Vendome. Com um pouco mais de disposição iria ao Le Quatre Temps e gastaria um punhado de euros em um dos maiores shopping centers do mundo. Tomaria Veuve Clicquot, compraria roupas da moda novel e veria pessoas bonitas.

Zero Celsius. Se bem acompanhado uma ótima pedida seria passear pelo Sena a bordo do Vedettes de Paris, sentir a cidade luz, ouvir boa música e terminar a noite com um jantar inesquecível e beijos memoráveis, french kisses literalmente.

Os mais ávidos por conhecimento iriam a Quartier Latin onde fica Sorbonne e as melhores livrarias européias e, em meio aos deliciosos pães de centeio com nozes e passas, devorariam excepcionais publicações literárias. Até ler pode ser melhor do que é sabido, em Paris. Por fim tomaria um trem até Le Havre ou Sens e se afastaria do glamour e da correria parisiense por algumas horas até que o desejo de voltar fosse maior que qualquer outra coisa. O caminho para o Aéroport Charles de Gaulle seria sufocante como um requiem em fá menor.

Se você estivesse em Paris, sentiria o mesmo que eu sinto cada vez que olho certos olhos mel ou bebo dos lábios mais aprazíveis. O paraíso fica no centro da França ou no apartamento ao lado, numa esquina desconhecida ou na cidade circunvizinha. Aço é sempre aço.

Mas, afinal, estar neste blog não é tão ruim assim.

08, Fevereiro 2008

Amanda,

Arquivado em: l'amour — Aluísio @ 7:26 am

São o calor e o frio da minha pele sobre o feldspato. Tudo são saudades de você: as fotos que eu trouxe, suas cartas, meus livros, o sol e o mar. Alguém que usa o teu perfume, que ostenta uma roupa parecida com aquelas com as quais me encanta.  Eu sou a saudade de você e não posso desvencilhar-me.

Contemplo – de olhar obliquo – o dia como um amante incansável, alvejo-te em pensamentos e razoes. Não raro na ausência delas. Em cada grão de areia tenho colocado um pouco da falta que me fazes. Temo, pois, que num futuro breve haverei de escolher outro elemento para materializar minha nostalgia. Assaz amo você. Como menino deslumbrado que vai à praia pela primeira vez, padeço por minha ânsia em explorar-te, desvendar-te.  Da tua imensidão fica meu estonteio. Somos sujeito e predicado, verbo e complemento. O verbo que se fez carne, a carne que se fez verbo.

Cerro os olhos e me vem à mente tua imagem: altiva, resplandecente, inabalável. Calo-me e emerge tua voz melodiosa, tua respiração tão compassada e harmônica como um allegro. Deixo sentir e surge teu carinho sem igual, o conforto do teu toque e aquele cheiro de flor silvestre.  Ajo em ti, Amanda.

Sejam esses dezesseis meses o prelúdio da beleza que há por vir. Redenção plena nossos amores, fortaleza exponencial.  O que sei de poesia aprendi dos teus lábios, de fotografia: dos teus olhos. O que penso saber de amor foi de cada oitavo dia dos últimos dezesseis meses. E do montante desses: a vida.

Deixa que as palavras te beijem.

01, Fevereiro 2008

I will

Arquivado em: Cotidiano — Aluísio @ 5:58 pm
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