Acordara de supetão com o pacote – de volume notável – sendo colocado sobre a mesa. “Estava tão concentrada que não te vi entrar”, mentiu.
Possuía-lhe – agora – a mais cruel das avaliações: abrir ou não? Como reagiria ao evocar lembranças de uma maneira tão concreta? Dúvidas que eram chagas. Ponderou, decidiu mas vacilou. Deu tres voltas ao redor da mesa retangular de cedro. Como podiam as paredes ser tão brancas? O rebu de suas unhas demoradas agrediam o envelope branco grosseiramente. Ela não devia estar usando esmalte, tampouco de um vermelho tão vivaz: a culpa acometedora. Guardar luto perpétuo seria a solução?
Por fim, abriu. Era como se cada músculo de seus membros superiores se rebelassem contra os impulsos elétricos enviados pelo cérebro. Precisava mas não podia. Não podia, mas pode. Havia uma carta escrita por ela em um pretérito muito longinquo – amarelada até, mas muito conservada -, fotografias diversas, a loção pós barba que ele sempre usara, notas fiscais e um livro embrulhado para presente. Tudo o que mantivera em sua gaveta pessoal. Certezas e dúvidas. Certezas indissolúveis e questionamentos impossíveis. Para quem seria o livro? Não havia uma dedicatória sequer. A falta de tal pista evocava o arrependimento por tudo aquilo que faltara em suas vidas. Do fundo do envelope retirou o último volume: uma caixa.
Uma medalha para concluir a história. Precisava guardá-la com afinco pois viria o dia em que a manchete seria esquecida. Quantos médicos mais morreriam por engano em zonas de conflito internacionais? Quantas viúvas, orfãos e lágrimas? Um sem número delas. Procuraria um vidro de propanona prontamente. Basta uma bala para aniquilar duas ou mais vidas de uma vez só.
Basta uma bala para aniquilar duas ou mais vidas de uma vez só, se não houver o tempo. E para os viventes sempre há o tempo – direito inerente a vida – de forma que uma só vida padeça de fato e as demais ressuscitem.

