Aluísio Komarchesqui Leibanti

31, Janeiro 2008

Desabafo

Arquivado em: Lorotas — Aluísio @ 11:36 pm

O momento que precede a morte – alheia, por certo – é indescritível. A linha que determina o exício, fim da vida e começo da morte é tão discreta que aceita-se dizer que não exista. A fração de segundo entre o puxar do gatilho e o impacto do projétil no peito da vítima tem seu valor real dividido por um número imensamente pequeno. Ver a vida passar como em um filme? Lenga-lenga! Todo o acervo em vídeo da humanidade poderia ser projetado nesse intervalo de revés nefasto. Mas isso é na primeira.

Nunca mais se sente a pupila contrair como um músculo, o coração descompassar-se como os graves e agudos da Quinta por Bethoveen. O que era medo vira excitação.

Depois dela são só a segunda, a terceira, vigésima. Passa a ser uma necessidade fisiológica. Matadores são entidades movidas pela dependência psicológica, pelo costume inefável. É viver uma sina de luto, uma sina negra. Vie en noir.

29, Janeiro 2008

1808

Arquivado em: Cotidiano — Aluísio @ 1:11 am

Seguem dois trechos do maravilhoso livro que estou lendo. Qualquer semelhança com a contemporaneidade é mera coincidência! – digo de antemão.

27, Janeiro 2008

ACTGACCT

Arquivado em: Cotidiano — Aluísio @ 8:50 pm

Um hábito que cultivo é ler as principais notícias do mundo por meio da Folha Online e não por jornais impressos. Foi uma cultura desenvolvida por mim há alguns anos e que tem dado muito certo por causa do dinamismo e do conforto. Assim posso visualizar grande parte das notícias na tela – como em um índice – e demorar o tempo que quiser sem ter de me preocupar com alguém querer ler algum caderno.

Assim sendo criei uma rotina sistemática. Começo pela seção ‘Cotidiano’ e depois para a seção ‘Mundo’. Feito isso, leio sobre ‘Ciência e Saúde’ e por fim ‘Dinheiro’. Não costumo levar mais de uma hora para me informar dos acontecimentos que mais me interessam e ainda faço isso às vezes rindo e enviando links para contatos no Messenger. Acontece que ultimamente tenho notado uma aba no site que relaciona as notícias mais curiosas publicadas no site. Tal advento proporciona muito freqüentemente a leitura de bizarrices duvidáveis como um faxineiro estadunidense que caiu do quadragésimo sétimo andar de um edifício e sobreviveu. Desde que li sobre este avatar da resistência física me tornei cativo a essa série de bizarrices enumeradas pelo UOL.

Hoje deparei-me com uma matéria interessante neste referido acervo de curiosidades. Uma notícia contava que uma garota australiana de quinze anos sofreu uma mudança do seu tipo sangüineo após um transplante de fígado. Segundo médicos é inexplicável o fato de células tronco do fígado doado terem se alojado na medula óssea da paciente. Meu conhecimento de Ensino Médio mostrou-se então falho. Pensava na impossibilidade disso e nas inúmeras aulas sobre genes alelos e sobre como os gametas da fecundação possuiam um gene cada que se transcreveriam no ADN do ser gerado. Revirei no meu mais íntimo meus conhecimentos sobre número de loci, cromátides, homo/heterozigotos e nada de digerir a notícia.

Com isso questionei meus esforços em aprender alguma genética durante o colegial, a superficialidade com que é tratada em sala de aula compromete a utilidade da mesma. Caso tal assunto fosse dominado poderia-se, por exemplo, eliminar o risco de rejeição de um órgão por um doador em quase cem por cento. Muitas vidas seriam salvas e Dr. House teria mais descanso. Eu que não sou lá muito fã de biologia fiquei interessado, recomendo pois a leitura da matéria clicando aqui.

26, Janeiro 2008

Longum iter emensus, mendacia longa reportat

Arquivado em: Lorotas — Aluísio @ 4:03 pm

Quando se pousa a mochila sobre os ombros tem-se um aspecto ímpar de viajar. O itinerário pouco importa, o que fica latente e é determinante no sucesso da expedição é a boa vontade para zanzar – a pé, de ônibus, taxi ou avião – e a segurança ao se correr riscos. Preguiça e medo demasiado não raro levam alguém além dos difundidos resorts.

O encanto de cada jornada se resume na multiplicidade de escolhas possíveis e os resultados específicos de cada acerto – ou erro. O prazer de conhecer pessoas e estabelecimentos diferentes e estar apto a avaliá-lo julgando cada aspecto individualmente é impagável. Voltei hoje de uma viagem assim, mais de mil quilômetros, seis restaurantes, várias lojas e um parque de diversões em enérgicas 30 horas que incluíram o sono. Conheci um cidadão de catorze anos que já tem contrato assinado com o Guarani e ganha por mês para treinar. Diz que joga muita bola, vai saber. Voltei com o telefone celular de um dono de livraria onde fui comprar um presente para minha namorada. Conversamos quase uma hora sobre literatura clássica e ele ainda me orientou sobre a melhor rota para voltar à rodoviária. Pediu que eu ligasse quando voltasse à cidade mas cobrou o preço integral pelo livro que comprei.

Não que lançar mão de correr pelo mundo seja uma virtude soberana. Não passa de um alívio espiritual e mimo para o ego por vezes construtivo, é verdade. Mas fica longe de ser inexorável. Conheço pessoas de caratér e conhecimento invejáveis e que não viajam muito. Kant – por exemplo – jamais deixou Konigsberg, sua terra natal. Não que eu tenha conhecido Kant, longe de mim. Não sou velho assim!

Ah, o cansaço? O cansaço – em absoluto, não relativo – é o de menos. O tédio assiste no descanso desmedido e isso é circustância para resorts.

22, Janeiro 2008

must-stop-by

Arquivado em: Cotidiano — Aluísio @ 10:19 pm

Cá estão dez livros para se ler antes do exício. Tomando-se como perspectiva de vida do brasileiro 67 anos de idade temos a incrível média de 0,67 livros por ano.  Très cult!

A Metamorfose – Franz Kafka
O Retrato de Dorian Gray – Oscar Wilde
O Senhor dos Anéis – J.R.R Tolkein
Engenhoso fidalgo Dom Quixote de La Mancha – Miguel de Cervantes
Fausto – Goethe
Dom Casmurro – Machado de Assis
1984 – George Orwell
A arte da guerra – Sun Tzu
Crime e castigo – Fiódor Dostoiévski
Os Maias – Eça de Queirós

20, Janeiro 2008

Perfazer: particípio passado

Arquivado em: Cotidiano — Aluísio @ 10:59 pm

Dias perfeitos são assim: ensolarados ou chuvosos; raramente tempestuosos. A potencialidade de um dia – ao se acordar – ser perfeito independe dos fatores climáticos externos. Mas dos internos.

Há, portanto, que desanuviar a alma por meio do que é aprazível. Só assim tem-se um dia perfeito e perene. A perfeição reside na singularidade de uma leitura bem feita, na inspiração de um poema, em olhar o que é torpe ou banal de forma exuberante. O sentimento de ineqüívoco parte de dentro, desatina de um beijo e termina nos sorrisos. Dias perfeitos são assim: efêmeros mas atemporais, perfeitamente contraditórios. São dizer e desdizer com primor.

Tem até cor, a perfeição. Cor-de-mel, digo eu.

19, Janeiro 2008

Eau de amour

Arquivado em: Lorotas — Aluísio @ 3:50 pm

Conto minha história inusitada e – sobretudo – infeliz. Faço o tipo bon vivant – despreocupado – com pouco mais de trinta anos, solteiro, bonito. Além disso tenho um carro esportivo e sou muito bem empregado. Adicione mais uma característica marcante: tenho um fraco por mulheres mais novas.

Como ia dizendo, trabalho há dez anos em uma empresa de perfumaria multinacional onde exerço um cargo de chefia. Lido diariamente com o processo de fabricação e inspeção de alguns dos perfumes mais cobiçados do mundo, um labor invejável mas deveras exigente. Para se ter idéia um perfume é composto por um número de essências que pode variar de setenta e cinco a duzentas. Ademais, há as notas que se dividem em três grupos: notas de cabeça, de coração e de fundo. Para um leigo isso pode parecer complicado mas na verdade tais notas se referem a duração do perfume nos mais variados tipos de peles.

Foi assim que a conheci: pelo cheiro. Não que o cheiro dela fosse o que mais me atraísse. Era extremamente bela, menos de dezoito anos com certeza. Meu mundo de pronto simplificou-se: um acorde básico de madeira, musgo de carvalho com floral e mais um blend irreconhecível entre thymo, salvia, menta, lavanda, manjericão ou alguma outra erva. Nem amadeirado, nem cítrico. Muito menos floral.

Jovens mulheres cheirosas e belas – de traços elegantes e corpos trabalhosos – me atraem tanto quanto suas maneiras comedidas e ingênuas. Noite sem igual, espumante francês, vestido de cetim e jazz americano. Conversas que fluem, universos a desvendar. Tomei-a pela mão e deleite maior não haveria, alva seda era sua pele. A cada sístole a atração aumentava e o desejo consumia. Esquecemos as horas, risadas, promessas e provocações. Por fim deixou-me um número de telefone. Mais que isso: um odor e número inexistentes.

Dos cheiros sempre soube ser perito enganável, mas jovens mulheres… ah, pouco pode-se prever sobre elas mesmo com o olfato mais bem treinado do mundo. Mulheres são fragrâncias sobre-humanas. Sublime parfums!

14, Janeiro 2008

Cem anos sem Machado

Arquivado em: Cotidiano — Aluísio @ 2:44 pm

O ano de 2008 – entre muitas coisas – abrangerá o centenário de morte de Machado de Assis, aclamado por muitos como o maior escritor brasileiro de todos os tempos. Falo disso sem pesar, com um certo orgulho: Machado vive nas lembranças de muitos, ora grave, ora tenaz.

Hoje ao arrumar alguns de meus livros refletia sobre cada emoção que a leitura de tal autor já me proporcionara. Machado é um ícone da literatura brasileira na mesma proporção que Cervantes maximiza o acervo espanhol ou Shakespeare e Dante são expoentes de ingleses e italianos. Sendo assim, é inexorável – por exemplo – envolver-se passionalmente com as incertezas de Bento Santiago, admirar a ousadia de Flora e a impassibilidade de Quincas Borba e até mesmo divertir-se com o sarcasmo de Brás Cubas. Lê-lo é um eterno passear por escadas áureas contemplando obras de arte, é transportar-se para um mundo tipicamente Machadiano, tão próprio que se finda com o simples fechar de um seus exemplares para ressurgir com a continuação da leitura.

Confesso que até hoje não tenha lido nada dele que me desagradara. Não falo só dos livros mais aclamados, mas dos contos de uma maneira em geral, de novelas pouco difundidas e até mesmo do tão criticado ‘Helena’. Há claro, os que preferem ridicularizá-lo. Coincidentemente ou não, muitos dos que o fazem não foram contemplados com o privilégio de ter contato com sua obra. Para todos esses, e mais os outros, recomendo sistematicamente a leitura de suas principais criações. Tais esforços são fundamentais para uma compreensão de mundo mais apurada, já que inegavelmente tenham se passado mais de um século e a atualidade dos referidos textos continua evidente.

A par disso, jaz em meu peito uma empáfia desmedida. Partilho do sentimento estúpido que tal ufania literária é capaz de me proporcionar. Findo meu texto com admiração, e; ultrapassando a função de redator fica minha pragmática sugestão de leitura para os momentos ociosos deste ano. Foquem-se no que difere, em geral tendemos a ignorar detalhes prazerosos fundamentais. A despeito disso, o tema se fecha, há prazeres impagáveis.

13, Janeiro 2008

Aurora de minha vida

Arquivado em: l'amour — Aluísio @ 10:07 pm
Meu banco, meu livro, meus olhos: você.

É assim mesmo, cada vez que te leio amo algo novo e com a mesma intensidade, que não falha. É um prazer sem igual, ler-te. Amo ler, amo você.

12, Janeiro 2008

Voyeurismo

Arquivado em: Lorotas — Aluísio @ 3:10 pm

Pedro criara um fascínio indizível sobre a vida alheia. Alheia não, em específico de Mariella. Era assim que havia alcunhado a vizinha, loura de tenra idade, busto farto, estudante. Tinha um olhar decidido e a maneira contida, peça para não se tirar os olhos. E Pedro não tirava. Era com eles que olfatava, percebia os aspectos, texturas e gostos, deixava ludibriar-se pelo que via.

Seus dias – até então monótonos – passaram a fadar-se em uma contemplação misteriosa. Se estava em casa não demorava a espichar os olhos através da janela torcendo para fitar aquela figura esguia e altiva. Tudo começava com uma inquietude inexplicável, aparentemente cada célula de seu corpo insubordinava-se ao racional do cérebro e cedia. Fazia isso sem um resquício de maldade sequer, alegrava-o observar a limítrofe em qualquer cena que fosse do cotidiano: lendo displicentemente no sofá, lavando louça, assistindo à tevê ou trocando de roupa… Arre! Esqueçam a parte do trocar de roupa! Como lavava louças de forma graciosa!

Em tudo Pedro lhe era cativo, desmarcava compromissos, criava pretextos para não sair de casa. A complexidade de sua situação era tal que passou a viver em função dela e bastavam dois dias sem vê-la para enfadar-se. Até que foram três, cinco, oito, onze dias. Quatro meses. E por sorte outra Mariella surgiu, mais vulgar, não lia. Mudou-se também. Mas veio outra, e outra, e outra. Todas Mariellas de um expectador com olhos caducos.

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