Aluísio Komarchesqui Leibanti

12, junho 2009

Viadutos, pontes e afins.

Arquivado em: Cotidiano, Disclaimer, Lorotas — Aluísio @ 12:43 pm

viaduto

 

Para fazer um viaduto – pavimentado, quatro pistas, 20 metros de vão – utilizaremos aproximadamente 1100m³ de concreto com resistência de 15 MPa, 55 toneladas de aço com bitolas variadas, infinitos grãos de areia, milhares de parafusos, centenas de brocas, duzentos dias chuvosos e um barranquinho daqueles que a gente escorregava de papelão quando era pequeno.

Junte todos os ingredientes em um caldeirão de ferro puro remanescente da Santa Inquisição e cozinhe tudo por aproximadamente dois anos, alternando movimentos no sentido horário e anti-horário até que dê liga.

Os possíveis efeitos colaterais são: calvície, insônia, dores de cabeça e úlceras estomacais. Aprecie com moderação.

11, junho 2009

População, Recursos e Ideologia da Ciência

Arquivado em: Nerdlike — Aluísio @ 12:06 pm

Dissertar acerca de temas como: população, recursos e ideologia é uma tarefa impossível de se realizar sendo eticamente neutro. Em parte porque a ciência não o é, e muito também pelas sérias deficiências existentes nos métodos de estudo científicos – sejam eles empíricos ou racionalistas. Toda pesquisa tem lugar num contexto social, expressa ideais de igual valor e contém significados sociais. Por isso, deve-se entender as conexões entre método, ideologia e conclusões substantivas ao examinar os trabalhos de Malthus, Marx e Ricardo.

O método que Malthus advoga é empírico, demonstra que o poder da população é indefinidamente maior que o poder da terra para produzir a subsistência. Defende, então, controles positivos e preventivos que teriam como função harmonizar a relação consumo versus meio de subsistência. O autor reconhece que a miséria entre as classes mais baixas deve ser interpretada como um mal tão profundamente arraigado na sociedade que nenhuma atitude pode alcançá-lo. É inquestionável que a riqueza produz as necessidades; mas é uma verdade ainda mais importante que as necessidades produzem a riqueza. As classes mais baixas reproduzem-se rapidamente. Assim sendo, a lei da população é desagregada em uma lei para os pobres e outra para os ricos.

O mecanismo de seu pensamento tem como base o princípio capitalista: economizar, investir na atividade produtiva, vender o produto visando o lucro e usá-lo como um novo investimento a fim de garantir o ciclo de produtividade. Para tal, estabelece-se um paradoxo: havendo a necessidade de vender o produto para obter o lucro, aquele que desembolsa o capital para aquisição não está economizando – o que contradiz o princípio referido. Ainda assim, se economizar muito, a taxa de acumulação do capital aumenta rapidamente e, muito antes que os problemas de subsistência sejam notados, o desenvolvimento será controlado pela falta de uma demanda efetiva à produção ampliada.

Vale lembrar que para a taxa de crescimento da população, ou para a necessária existência de seus controles, pouca diferença faria se a situação da demanda e da oferta fosse produzida prematuramente por uma má estruturação da sociedade ou uma distribuição desfavorável de riqueza. O trabalhador sofre reflexos em mesmo grau qualquer que seja sua causa.

No trabalho de Ricardo, por sua vez, o princípio de população tem um papel oposto e também é tratado de acordo com uma metodologia diferente. Seu método consistia em abstrair elementos e relações fundamentais da complexa realidade e manipulá-los de modo a evidenciar a estrutura do sistema em questão. Racionalista que era, o autor contrasta-se fortemente com Malthus em relação ao seu conceito de harmonia social.

Estabelece-se em sua obra o problema analítico de explicar o equilíbrio da taxa salarial, pois acreditava que este era determinado por dois fatores: a escassez e os custos da subsistência. A curto prazo e sob circunstâncias favoráveis, a taxa de acumulação do capital poderia exceder a capacidade da população de produzir, e durante tais períodos os salários poderiam estar bem acima do seu preço natural. Assim sendo, através do estímulo que os altos salários dão ao aumento da população, o número de trabalhadores cresce e os salários caem – naturalmente – abaixo de seu valor pretérito.

Ricardo, por fim, não estava dissuadido pela evidência empírica e não tinha sentimento de débito com a história. Sua análise permitiu enxergar a possibilidade de melhoria da realidade em vez de somente entendê-la e aceitá-la.

A fundamental diferença entre os dois pensadores acima e Marx se deveu certamente ao método. Marx defendia que não existiam recursos em abstrato, nem recursos que sejam uma coisa em si mesma. Essa visão relacional do mundo rompe com a visão Aristotélica antes praticada.

Neste contexto, a base econômica da sociedade passaria a compreender duas estruturas: as forças produtivas e as relações sociais de produção. Marx, por conseguinte, fez distinção entre uma divisão técnica do trabalho e uma divisão social. Usualmente, o autor recorria ao fato de que o homem tem que comer para que possa e viver, e; que a produção – transformação da natureza – tem que ser prioridade sobre as outras estruturas numa situação de conflito. A lei capitalista de acumulação sempre manipulou a sociedade para os limites de suas relações sociais e de sua base de recursos naturais.

Posto isso, é conveniente estabelecer o conceito de mais-valia teorizado pelo alemão. A partir do “sobretrabalho”, argumentava ele, parte do tempo de trabalho do proletariado era entregue gratuitamente ao empregador. Se a mais-valia é empregada para a produção de mais-valia, então mais dinheiro teria que ser despendido em salários e na aquisição de matéria prima para os meios de produção. Sob esta ótica a lei da produção capitalista nada mais é que a pretensa lei natural de população, reduzindo-se à taxa de acumulação capitalista e a expansão da força de trabalho.

Nota-se, pautado em tais argumentos, uma maior distância quanto ao pensamento de Malthus e Ricardo, pois atribui à lei de população uma validez universal salientando que a população trabalhadora produz tanto o excedente como o equipamento de capital.

O argumento central do presente fichamento é que o único método capaz de tratar com as complexidades da relação população-recursos de um modo integrado e dinâmico é aquele fundamentado no materialismo dialético. A pobreza não pode, portanto, ser explicada satisfatoriamente com a invocação de alguma lei, pois Marx reconhece que uma alta taxa de acumulação de capital favoreceria também o crescimento populacional – fechando a cadeia iniciada por Malthus e posteriormente ampliada por Ricardo.

22, dezembro 2008

Père Noël

Arquivado em: Cotidiano — Aluísio @ 10:28 am

O espírito natalino não é mesmo a mais indeflagrável das cousas?  Presenciei hoje – pela manhã – nada mais, nada menos que um comercial da Telesena de natal veiculado pela Rede Globo. É mole ou quer mais?

02, novembro 2008

Alicerce capital

Arquivado em: Nerdlike — Aluísio @ 9:43 am

     Contrapor a função social da terra às peripécias capitalistas da especulação financeira, mais-valia e monopólio do espaço urbano é exortar a incapacidade humana de administrá-la. Pode-se, a partir de então, questionar a legitimidade de tal ato comumente encarado como natural.

     Tal visão social é acentuada, sobremaneira, por ser a terra uma ‘‘necessidade inerente ao ser humano, numa concepção agrário-geográfica, como base do viver, do trabalhar e do produzir.’’ Dessa forma; o planejamento territorial vigente é segregativo, pois cabe a determinada minoria decisões concernentes à infra-estrutura  global aptas a influenciar no valor de mercado das pautadas propriedades. [1]

     Sendo o montante de serviços urbanos escassos fonte ao que demanda o cidadão, o mercado os leiloa mediante a valorização diferencial do uso do solo [2]. Assim, serviços fornecidos gratuitamente aos moradores – como ruas asfaltadas, coleta de lixo, iluminação pública, galerias pluviais – acabam por serem usufruídos apenas por aqueles dispostos e aptos a pagar por eles como se fossem benefícios.

     Mais que substrato ou fonte de labor, a terra passa a ser investigada como mero elemento mercantil cuja virtude mais renitente é seu valor nominal bruto – o que determina a organização social no contexto contemporâneo.

     O desafio do Engenheiro Civil passa a ser, como construtor e modificador do espaço, discernir sobre as necessidades de determinada população para que atendidas, concilie o planejamento urbano e não se torne algoz agente desse processo exploratório do meio imobiliário.

 

 

[1] Inciso III, do artigo 1º, da Constituição Federal. 1988.

[2] SINGER, Paul. ‘O Uso do solo urbano na economia capitalista’, 1978.

20, outubro 2008

Copy&paste

Arquivado em: Cotidiano — Aluísio @ 12:03 pm

Leiam este texto do Briguet que aborda de maneira concisa e espirituosa o cenário político de Londrina. É uma economia de papel e tempo porque equivale à leitura de todos os artigos sobre o facto publicados entre Setembro e Outubro desse ano.

24, setembro 2008

Max Weber: conceitos

Arquivado em: Nerdlike — Aluísio @ 12:04 am

Estudar o antipositivismo de Weber é eminentemente compor às ciências da natureza do espírito o papel dos valores humanos. Ao fazê-lo, há de se lançar mão de conceitos pré-estabelecidos por Marx e Nietszche a fim de compreender o abrangente processo capitalista ocidental – suas idéias e fatores de ordem material.  A teoria compreensiva do autor trata do individuo de forma que não exista o conceito de totalidade em sua obra; já que para isso seria necessário conhecer as vontades e sentimentos de todas as pessoas.
Primeiramente, ressalta-se o conceito primário de sociologia para Weber: “ciência que pretende entender a ação social para explicá-la casualmente em seu desenvolvimento e efeitos – observando suas regularidades expressas na forma de usos, costumes ou situações de interesse”. Partindo deste princípio e de que a sociedade externa é uma realidade múltipla e inesgotável, Weber trabalha com uma elaboração limite para o estudo sociológico, à qual alcunha de tipos puros ou ideais – ainda que tenha consciência do irracional, das emoções e equívocos implícitos no desenvolvimento das ações sociais.
Tais tipos puros de ação social são quatro: a ação racional com relação a fins, a ação racional com relação a valores, a ação tradicional e a ação afetiva. Cabe ao sociólogo ponderar o sentido que se atribui à determinada ação para estabelecer seu verdadeiro significado social, uma vez que esses tipos não passam de modelos conceituais puros.
A ação social será racional com relação a fins quando, para atingir um objetivo estabelecido, parte de uma conduta científica ou de uma ação econômica que permitam interpretação racional. Para considerar uma ação racional com relação a valores, o interlocutor deve orientar-se por fins últimos, agindo de acordo com suas próprias convicções e levando em conta fidelidade a valores específicos. Ainda mais, o sujeito age de modo afetivo quando sua ação inspira-se imediatamente em emoções como vingança, orgulho, admiração, medo ou inveja. Caso hábitos e costumes levem a que se aja exclusivamente em função deles, reagindo a estímulos habituais, estamos diante de ações tradicionais inaptas a extrapolar o cotidiano.
Uma conduta plural reciprocamente orientada, e que abrange conteúdos significativos, descansa na probabilidade de agir socialmente numa forma predeterminada a qual Weber denomina relação social. Nota-se esse princípio, por exemplo, no vendedor que aceita um cheque de seu cliente ou político que faz promessas a seus eleitores contando com votos. Esses atos baseiam-se em expectativas de condutas que não possuem obrigatoriamente reciprocidade.

No contexto de sobreposição das ações sociais com relações sociais surgem conflitos, sendo por excelência à sociologia a desigualdade. Nas sociedades capitalistas modernas a propriedade privada e as possibilidades de utilizá-la no mercado são determinantes essenciais de posição das pessoas. Tal concepção implica numa separação societária em esferas – econômicas, políticas, religiosas, jurídicas, culturais – com lógicas autônomas de funcionamento. Para Weber, o agente individual é a única entidade passível de conferir significado às suas ações e nelas combinar sentidos referentes a esferas distintas. É disso que trata sua obra “A ética protestante e o espírito do capitalismo”, sob a figura do empresário protestante cuja ação combina com pesos diferenciados o pujante sentido econômico com o caráter religioso e o aspecto da salvação.
A forma pela qual a honra é distribuída em uma comunidade é, segundo Weber, a ordem social. Estabelecidos conceitos referentes ao plano coletivo – classe, estamento, partido – se pode entender os diferenciados mecanismos de distribuição do poder. Pessoas que têm a mesma posição econômica no que tange à propriedade encontram-se na mesma situação de classe. Assim, as ações sociais têm a sua racionalidade definida pelo mercado.

Segundo os parâmetros sociológicos definidos pelo autor, o termo ‘classe’ só pode ser empregado a uma quantidade de pessoas que estejam representadas exclusivamente pelos mesmos interesses lucrativos em condições determinadas pelo mercado.

Em oposição às classes, os estamentos – geralmente – são comunidades de caráter amorfo que determinam a honra de seus elementos. Há também nesta modalidade a exigência de um modo de vida compatível para pertencer a determinado círculo; podendo ser abertos ou fechados. Uma casta, por exemplo, é um estamento fechado porque inúmeras obrigações e barreiras são intensificadas e fiscalizadas na participação estamentária.

Enquanto as classes defendem a ordem econômica como cerne, os estamentos o têm na ordem social: o primeiro enfatiza o sentido material como virtude, o segundo vê na honra o indicador da sociedade. Outra distinção entre eles refere-se à existência ou não de um sentimento de pertencimento, já que as classes são apenas unidades de status na comunidade. Para os partidos, tem-se a racionalidade das ações e a busca incessável por influir na comunidade, quase que como uma luta exclusiva pelo domínio por meio do caráter político. A finalidade dos partidos pode fazer uso de coação física ou ameaça para a ocupação de determinado aparato.
Um exemplo da influência das classes é a aristocracia feudal européia no século XVIII, pois mesmo financeiramente decadente ela ainda era socialmente deificada em relação aos ‘novos ricos’ burgueses. Este fenômeno pode ser contemporaneamente associado à dileção pelas classes emergentes aos ditos participantes de uma alta sociedade (high society).

Ilustrando as castas evidencia-se o sistema hindu, uma divisão social importante em países como a Índia e o Nepal. Este grupo social é dito hereditário, isto é, a condição do indivíduo passa de pai para filho, endógamo, pois ele só pode casar-se com pessoas do seu próprio grupo. Seus integrantes estão predeterminados à sua profissão, hábitos alimentares e o tipo de vestuário. Tem-se dessa maneira a formação de uma sociedade estática. Originalmente, as castas são quatro: os brâmanes – religiosos e nobres –, os guerreiros xatrias, os vaixas – camponeses e comerciantes – e os sudras (escravos). À margem dessa estrutura social havia os párias, sem casta ou intocáveis, hoje chamados de haridchans ou haryans.

Conclui-se que os participantes de ações sociais e relações sociais podem orientar-se pelas suas crenças na validade de uma ordem que lhes apresenta obrigações ou modelos de conduta, podendo basear-se na racionalidade. Adquirindo a legitimidade, a ordem se torna válida e confirma as expectativas do sociólogo, compondo formações sociais diversificadas nas quais se detectam o aparecimento dos estados e de suas sociabilidades políticas.

** Esta é a versão original de meu artigo sobre Weber entregue como avaliação da disciplina de 6SOC009 do Curso de Engenharia Civil da Universidade Estadual de Londrina. A versão final contou com a revisão de orográfica de Amanda Z. Zucoloto e conceitual de Rogério R. Tostes.

30, agosto 2008

Solilóquio

Arquivado em: Lorotas — Aluísio @ 12:39 am

Lembra quando as mãos trêmulas calavam o pranto e no olhar era só ternura para fitar? Alvas manhãs distantes que o tempo roubou!
Se nada é perene, diz-me qual o pungente motivo da ganância, minha querida! Que inquietude derradeira macula o sossego duma vida imaculada?
Malditos sejam todos os leitos onde não estás – onde não estivemos. Tenho aquele caderno em que escreveste tuas primeiras frases de amor, desespero e culpa. Tenho nada mais. Um punhado de hiatos, vontades e lembranças.
Falas de motivos e causas como se tudo isso não passasse de produtos cartesianos desdenhados pela razão lúdica de nossos corpos amontoados. Escrevo numa caligrafia custosa palavras que nunca existiram. Escrevo.

29, julho 2008

Fazes-me falta

Arquivado em: l'amour — Aluísio @ 9:58 pm

Porque te escolho, neste sussurro sem retorno? Porque te quero no meu sono, se iluminaste sobretudo o que não fui? Morreste-me antes que eu morresse – e não consigo morrer sem ti. Nunca consegui. Todos os dias da minha vida estive contigo – como se todas as amizades anteriores fossem só o caminho para chegar a ti, como se todas as amizades posteriores fossem apenas a ausência de ti. Mais delicadas, mais ritmadas, mais claras – menos tu.

Arrumei os amores, é a primeira regra da vida – saber arquivá-los, entendê-los, contá-los, esquecê-los. Mas ninguém nos diz como se sobrevive ao murchar de um sentimento que não murcha. A amizade só se perde por traição – como a pátria. Num campo de batalha, num terreno de operações. Não há explicações para o desaparecimento do desejo, última e única lição do mais extraordinário amor. Mas quando o amor nasce protegido da erosão do corpo, apenas perfume, contorno, coreografado em redor dos arco-íris dessa animada esperança a que chamamos alma – porque se esfuma? Como é que de um dia para o outro a sua voz deixou de me procurar, e eu deixei que a minha vida dispensasse o espelho da tua?

[Inês Pedrosa, Fazes-me falta, pág. 168.  Ed. Planeta, 2003]

23, julho 2008

La gasolina

Arquivado em: Cotidiano — Aluísio @ 9:47 am

Fim de semana e uns quilômetros para rodar; o ponteiro de gasolina lá embaixo. Uma placa na loja de combustíveis dizia ‘Só hoje!’ e já indexava o preço imperdível de dois reais com vinte e sete centavos por litro de octanos.

Séptico que sou, relutei alguns instantes aquele apelo capitalista. Encostado o possante, cinquenta reais metamorfosearam-se em pouco mais de vinte e dois litros de Esso Maxxi. E não é que no dia seguinte meu ceticismo mostrou-se vão?

Pasme, o preço da gasolina fora realmente reajustado! Dois reais com vinte e cinco centavos por litro.

03, junho 2008

Patologias

Arquivado em: Lorotas — Aluísio @ 10:33 am

     Se havia parte alguma de seu corpo passível de dor, ela existia. Os músculos se contraiam de forma excruciante, como se fossem todos lisos; até os esqueléticos. Vencer a distância entre a cama e o criado-mudo era mais extenuante que ter corrido meia maratona no dia anterior.

     Colocara em prática sua filosofia blasé: questionava a efemeridade das coisas terrenas e a dependência corpo-mente. Reflexo de sua vida desregrada, ali; acamado e solitário. Talvez se o ímpeto de conhecer mais lugares ou ter mais parceiras fosse contido estaria em uma situação mais confortável. Julgou-se tolo por ignorar o fato de repentinamente ter de abrir mão de sua qualidade de vida. Admirou-se com a facilidade de se esquecer momentos de chá de jasmim em porcelana chinesa e lençóis de algodão egípcio. Uma vida inteira sob tais condições é varrida da lembrança em poucas horas em uma noite de malária cerebral. Tudo que construíra teve este termo: Anopheles, Plasmodium falciparum.

     Consumado, hipócrita, sem herdeiros.

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